A POLÊMICA DA REPOSIÇÃO HORMONAL II
ESCLARECIMENTO ÀS USUÁRIAS DA TERAPÊUTICA DE
REPOSIÇÃO HORMONAL (TRH) E À POPULAÇÃO EM GERAL
A Federação Brasileira das Sociedades de
Ginecologia e Obstetrícia - FEBRASGO - e a Sociedade Brasileira do Climatério -
SOBRAC -, entidades médicas que cuidam da saúde da mulher climatérica, em
virtude:
1. Das manifestações e da enorme repercussão na mídia quanto aos resultados do
trabalho publicado pelo Journal of American Medical Association (JAMA,
julho/2002 - vol. 288, nº 3, 321-333), do estudo denominado "Iniciativa da Saúde
na Mulher" (WHI), patrocinado pelo National Institute of Health (NIH), dos
Estados Unidos da América do Norte, sobre as influências da terapêutica de
reposição hormonal em mulheres pós-menopáusicas;
2. De grande preocupação com a saúde das mulheres nesta etapa da vida,
especialmente das que estão em uso de TRH.
Acham-se no dever de prestar os seguintes esclarecimentos às usuárias de TRH e à
população brasileira:
O estudo WHI reuniu, em várias cidades americanas, mais de 27.000
mulheres pós-menopaúsicas, com idade entre 50 e 79 anos, sendo a média etária de
63,2 anos. O objetivo primário foi avaliar os efeitos da TRH sobre o risco de
infarto do miocárdio e de câncer de mama. Também se procurou verificar o risco
de acidente vascular cerebral, de embolia pulmonar, de câncer colo-retal e de
fratura de bacia. O tempo médio previsto de observação para este conjunto de
mulheres era de 8,5 anos. As pacientes para fins do estudo planejado foram
divididas em dois grupos:
Grupo 1 - Composto de pacientes que haviam retirado o útero (histerectomizadas),
tratadas com Estrogênios Conjugados Eqüinos (ECE), nas doses de 0,625 mg/dia. Os
seus resultados vêm sendo comparado com placebo (substância inativa). Os seus
resultados não estão disponíveis ainda param o conhecimento público - Este grupo
continua sendo estudado com as pacientes se mantendo dentro dos limites de
segurança pré-estabelecidos pelo comitê de monitorização e segurança do estudo.
Grupo 2 - Composto de pacientes com útero intacto, tratadas com a
associação de estrogênios progesterona, por via oral, no seguinte esquema:
Estrogênios Conjugados Eqüinos (ECE), nas doses de 0,625 mg/dia. Igualmente
tiveram os seus resultados comparados com placebo. Este grupo teve o seu
acompanhamento interrompido após 5,2 anos de seguimento médio das pacientes pois
a incidência de câncer invasivo de mama ultrapassou os limites de segurança
pré-estabelecidos para as pacientes do estudo.
Os resultados encontrados no grupo 2 (associação de estrogênios e progesterona),
que sofreu interrupção na sua continuidade, foram: aumento do risco de câncer de
mama (8 casos em 10.000 mulheres a cada ano), infarto do miocárdio (7 casos em
10.000 mulheres a cada ano), acidente vascular cerebral - derrame cerebral - (8
casos em 10.000 mulheres a cada no) e tromboembolismo venoso (8 casos em 10.000
a cada ano). De outra parte, houve diminuição do risco de fraturas (5 casos em
10.000 mulheres a cada ano) do quadril e de câncer colo-retal (6 casos em 10.000
mulheres a cada ano).
CONSIDERAÇÕES SOBRE O ESTUDO
1. Deve ser levado sem consideração que apenas um regime terapêutico foi
utilizado, uma única dose de hormônios foi empregada (doses convencionais) e uma
única via de administração dos medicamentos foi testada. Não se analisou as vias
não orais (adesivos transdérmicos, gel, implantes e via nasal). Não se avaliou
os vários tipos de regimes terapêuticos disponíveis em nosso país. Analisou-se
apenas o regime terapêutico que é mais empregado no país em que o estudo foi
realizado. Não se levou em consideração os aspectos clínicos singulares de cada
paciente que permitiriam a individualização por parte do médico do regime mais
apropriado para cada caso, possibilitando, desta forma, otimizar os benefícios e
reduzir os riscos.
2. O aumento do risco relativo de câncer de mama já era referido em estudos
anteriores. Parece, conforme o próprio WHI mostra, depender do tempo de uso dos
hormônios e do emprego concomitante e contínuo de progesterona junto com o
estrogênio. O risco neste estudo só foi observado depois de um tempo médio de
seguimento de 5,2 anos, o que já havia sido notado em outros estudos.
3. O grupo de mulheres no estudo WHI que estão usando apenas estrogênios não foi
interrompido, pois os limites de segurança estão preservados. Os seus resultados
serão divulgados em tempo oportuno.
4. Os resultados deste estudo, inquestionáveis, devem, no entanto, ficar
restritos ao regime de tratamento empregado às pacientes dessa faixa etária. Não
se pode extrapolar os seus resultados para todos os outros tipos de regimes
terapêuticos. De igual modo, não podem ser estendidos para a s mulheres que
iniciam a TRH mais cedo em período mais próximo da menopausa.
5. Atualmente, existe uma tendência mundial para a admisnistração de baixas
doses de hormônios nas mulheres com maior tempo de pós-menopausa e/ou idade mais
avançada, o que não foi avaliado no estudo WHI.
Parece-nos importante esclarecer que a decisão clínica de iniciar ou dar
continuidade TRH (conjunta de médico e paciente) deve levar sempre em
consideração a peculiaridade de cada caso, em particular procurando-se
individualizar o regime terapêutico a ser adotado, as doses e vias a serem
empregadas, o tempo de utilização dos hormônios, os benefícios e os riscos desta
modalidade de tratamento. Com base nos resultados publicados não aparece
apropriado indicar a TRH em esquema combinado e contínuo com estrogênios e
progesterona, especialmente com os mesmos hormônios e as mesmas doses usadas no
estudo WHI, visando a prevenção primária de infarto do miocárdio e acidente
vascular cerebral.
Por fim, gostaríamos de enfatizar que não existe razão apara pânico. As
pacientes usuárias de TRH que estejam preocupadas com o seu tratamento, devem
compartilhar com os seus médicos de confiança a decisão da continuidade do seu
atual regime de TRH, da eventual conveniência de mudanças ou mesmo da sua
interrupção.
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